"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia (...)."

Carlos Drummond de Andrade

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terça-feira, 17 de abril de 2012

Eu Voltarei



Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.

Eu voltarei...

segunda-feira, 7 de março de 2011

As Tranças da Maria


Feliz Dia Internacional da Mulher!


O caso d Izé da Badia ...
Era do que a gente falava.
Era só o que se ouvia.

O Izé ficou leso, atoado pelos campos...
Perdeu sua fé de vaqueiro
Consagrado nas vaquejadas.
Não mais seu canto violeiro,
Seu chamado boiadeiro.
O aboio do seu berrante
Que a gente ouvindo distante
Dava a pinta do ponteiro:
Lá evai o Izé da Badia,
Orei dos vaqueiros.

Chamava, o boi escutava.
Falava,o zaino entendia.
Cantava,as moças sorriam.
E agora...Tanta moça pelo mundo
E ele á procura de Maria.
Maria que sumiu.

Buscando seu pote d´água
No corgo de vista a casa.
O pote cheio,já no barranco.
A rodinha posta de lado.
A cuia se balançando.

E Maria...Aonde foi Maria?
Na garupa de um vaqueiro
Desconhecido dali
Buscando um bi de arribada
Falava rindo as comadres
Pelas portas conversando
Moça não tem pensar...
Noiva do Ize da Badia,
Memória já no dedo.
Bragal bordando na arca.

Vestido branco rendado.
Vestido de damacê.
Banhos já recorridos.
Casamento certo,marcado
No dia da santa assunção,
Sendo padrinho o patrão
Dono de campos e gado.

E agora... aquela armada.
A moça no seu sumiço.
O Izé leso sem mais idéias
Pelos campos sem destino
A procura de Maria.
Galhofa dos companheiros...
‘’Cadê o sedém da Maria,Izé?

Os sedenhos da Maria...
Seus cabelos ondulados.
Mantos solto se penteava.
Nua,encobria as formas.
Basta cabeleira negra
Dos joelhos vinham abaixo,
Dos tornozelos passavam.

Duas tranças bem trançadas
-rédea dos corações.
Izé da Badia,moço,vaqueiro de fama
Amarrado para sempre
No sedenho da Maria.

A mãe de Maria
Novenou a santo Antonio.
Reza nova emprazou:
Menino de Jesus de praga.
Foi no centro de kardec,
Fez grandes invocações.

Baixou o Espírito Guia:
-Maria desencarnada.
Espírito limpo no espaço
Fizessem suas boas preces.
Não mais chorassem por ela.

Sinalassem,pediu a mãe.
Sinais,teriam a seu tempo.
Resumiu o guia pela boca do aparelho.
Maria com seu pote de barro
Buscando água no riachinho.
O pote cheio já no barranco.
E Maria nunca mais voltou.
Niguém ouviu nada.
O mato guardou seus segredos escuros.

Maria se foi na garupa
De um vaqueiro,desconhecido
Dali,
Buscando boi de arribada.
Tagarelavam as comadres
Nos fuxicos de terreiro
Pelas portas conversando.

Falhou a velha Ambrosina:
-no mato tem bicho ruim...
A triste sorte da moça
Fora dessas conversas...

Tia s’ ta caducando...
Um Corguinho desses nada
Tem bicho fera nenhum...
Isso sim cabeceiras altas,
O volume de água lagoas... pode sê.
Não esse Corguinho, coisinha
Tão á toa!...

Tem brejo nas cabeceiras...
Catando lenha eu vi
O espojeiro da bicha,
Faz tempo,nigu´m me tira...
Voltei lá mais não.

Ao demais seu malaquias
Viu o sujo dela detrás do toco do embiruçu
E lá no embrejado,tejuco amassado,
E a porca de seu Ricardino
Era varadeira de cerca,
Levou tiro, urubu comeu.

Velha calou.Invocou nossa senhora,
São marcos.Alma bendita...
Hão de mostrar,mais dia menos dia.

O pai de Maria bateu estradas,
Vizinhança.corrutelas.
Indagou de sua filha.
Ninguém deu sinal dela.

Entrou em cidade grandes
Com juiz,delegado e praças.
Procurou a autoridade
E fez a queixa no usual
Dando todos os sinais.
Maria das graças de nome.
Registrada no cristã.
Moça feita.igualada de bons dentes
Sem falha nem ponto de ouro.

Nem alta nem baixa.
Meia de altura.
Cintura fina de duas mãos abarcar.
Boas cores de saída.Moça da roça assinando o nome,
Lendo por cima.
Seu sinal de maior fornidas
Alcançando a barra da saia,
Barrendo o chão.

O escrivão anotou em livro
E prometeu no vago: providenciar.
O pai seguiu seu destino
Andou em ruas de arrabaldes,
Encarou em ‘Casa de mulheres’’
Marcadas de luz vermelhas.
Deu todos os seus sinais
Sem esquecer as tranças negra.
Na sua angustia de pai,
Mesmo que fosse ali
Queria encontrar sua filha.
As mulheres assanhadas
Ouviam compenetradas,
Penalizadas do pai.
Uma ria outra chorava.
Ninguém tinha visto Maria.

Foi na cartomante
Acreditada.
Contou seus pesares, suas penas.
O escuro daquele caso
Pediu para clarear.
A verdade as cartas podiam contar.
O baralho baralhado.
Cortado e recortado em cruz.
Veio o naipe de espada.
O valete de paus.
A dama de luto, o rei do cerrada,
Atuada, invocada as fontes
Da cabala...
Pouca esperança.luto presente...
Se consolasse com o destino de sua filha.
Sinais?...Teriam a seu tempo.

O Pai voltou. Aquietou.
Lavrou tosca cruz de aroeira.
Fincou no barranco ao lado do pote.
Acendeu lamparina-dia-e-noite
Rogando os avisos do destino de sua filha.

Izé da Badia se refez.
Voltou a vaquejar.
Levar e trazer boiadas, sertão adentro, estradas e fora.
O aboio de seu berrante
Era um chamado constante
Da sua noiva Maria.

Já o cego desvalido
Pedinte das romarias
Tinha posto moda,
Rimado versos e traçado na viola
A romança de Maria.

Juntava gente nas feiras,
Abria uma grande roda.
Trovadores no desafio
Violeiros na viola.
Sempre a triste e chorada estória
Do sumiço da Maria.

Ate crianças de sitio
Nos folguedos de terreiro,
Nos seus brinquedos de rodas,
Uma ou outra se escondia.
Iam todas procurar
No faz de conta Maria.

O tempo fez o seu giro.
As estações se trocaram.
Passou o rolo compressor
Nas estradas consertando.
Também nos corações.
O compressor do tempo apagando.
Foi depois de tudo isso passado,
Contado e recontado que vieram
Os caçadores e suas matilhas de caça.
Pararam na porteira do sítio.
Tomaram chegadas
Caçadores de onça.
Pediram suas carecidas informações,
Gente de longe...
Ouviram pela milésima vez a estória
Do sumiço da Maria.
- que havia de voltar-disseram-compadecidos
E filhos para os velhos apadrinhar.

Provera a deus,responderam
Consabidos na sua magra esperança.

Tomado o café da hospitalidade sertaneja
Voltaram ás suas montadas.
- Caçadores de onça...
Suas trelas ansiosas, vivas,
Saltitantes, alçadas, sentindo.
E pressentindo a caça em todos
Os cheiros novos da terra, dos ares.
E das matas.

Tinham que atravessar o Corguinho
Com sua água de prata correndo em areia
Branca e lajedo claro.
No barranco,a cruz. O pote,a lamparina.
Luz pequenina,
Mal divulgada na grande luz do dia.
Lume,vago,pisca-piscando,
Invocando as almas no escuro da noite.
Na corrente os animais bebiam em sorvos
Pelas cambas dos freios.
Os cães sadentos,arfantes,respingantes,refrigerados
Conversavam do ouvido avivado
Á vista do pote e da cruz.

Uma trela onceira farejou
Seguindo o curso d’água.
Levantou pouco distante.
Caça grossa!...Ali!...

Paca, anta capivara, seria...
Decidido a trela perdia o faro.

Os caçadores meio atentos, displicentes,
Queimavam seus palheiros.
Do matos vinha o acuo resguardado.

Um caçador chamou na trompa.
Respondeu o ganido desmontaram.
Engatilhadas suas armas embaladas,
Seguiram no rumo certo.

No fundo do mato, na trama.
Verde da ramaria cipoal, samambaias,
No escuro do embrejado uma cena inesperada.
Rolo negro,movediço assanhado,
Enlaçado ao pastor onceiro, quebrava os ossos ao
Primeiro.
O outro, preso á trela, gania.
Em ânsias de escapar.

Um dois tiros.e o rolo negro,compressor,
Cedeu nos seus volteios se rebolcando
Pelos troncos.
O caçador cortou a trela.
Um pastor vivo em tremuras de pavor,
Arrepiado, vertendo inconsciente se arrastando, acovardado.

A gente do sítio ocorreu no rumo dos tiros.
Viram as feras mortas em contorções reflexas.
Na volta apanhamos, aproveitem o resumo p´ra sabão
Que essa bicha tem graxa.
E se foram. Caçadores de onça...
O dia se fazia alto.Campos e matas
Eram todos uns alagados de sol.

A gente do sítio arrastou o tronco rola-rolando
Para o descampado. Estiraram, palmearam.
Dezoito palmos bem medidos!

Por que razão obscura teria aquela besta – fera
Se desgarrado do seu grupo longínquo e vencendo
As sombras do dia e o escuro da noite.
Vindo se aninhar naquelas cabeceiras inocentes?...

Os homens na esfola em conversas, pilhérias e risadas.
Estaquearem o couro como sabe fazer agente da roça.
Voltaram ao carnal.Cortaram do baixo ao alto.
Viraram os debulhos. Arrancaram os pulmões,
Enormes, desconformes.
Cortaram, espostejaram.

Já as mulheres vinham com seus baldes,bacias e gamelas,
Recolher os pedaços daquela carne branca e gordurosa
Para o sabão caseiro.Os cães disputavam, rosnando,
Agressivos pedaços de bofe.

Findo o trabalho alguém se lembrou de romper o
(bucho alongado.

E o que estava ali, senhor?
Numa barrela escura, repulsiva espumosa – as
(traças da Maria
- Bem falou a velha Ambrosina.
A cartomante do baralho.O guia do centro de Kardec...
Haviam de ter a seu tempo o destino de Maria.

Epílogo como nas estórias bem contadas:

E o que fez delas o Izé?
Mandou trançar duas rédeas bem traçadas para seu cavalo
Libuno,crinudo,espadas romanas cruzadas,cabo negro,
Cavalo de vaquejadas.

Duas tranças primazia.Macias de luvas-mão,
Presas ás cambas de seus freio niquelado,
Em prata fina banhado.E o izé tinha nas mãos,
Todos os dias,o sedenho da sua noiva Maria.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Lampião da Rua do Fogo

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Ali, naquele velho canto onde a Rua de Joaquim Rodrigues faz um recanteio, morava Seu Maia, casado com Dona Placidina, numa casa de beirais, janelas virgens da profanação das tintas, porta da rua e porta do meio. Portão do quintal, abrindo no velho cais do Rio Vermelho. Isso, há muito tempo, antes da rua passar a 13 de Maio e da casa ser fantasiada de platibanda.

Seu Maia era muito conhecido em Goiás e era porteiro da Intendência. Boa pessoa. Serviçal, amigo de todo mundo e companheirão de boas farras. Gostava de uma pinguinha em doses dobradas, dessas antigas que pegavam fogo. Então, se misturava vinho, conhaque e aniseta; só voltava para casa carregado pelos companheiros, que o entregavam aos cuidados da mulher.

Esta, acostumada, embora com a sina ruim, como dizia, não poupava a descalçadeira quando recebia o marido naquele fogo, arrastando a língua, de pernas moles, isto quando não virava valente, quebrando pratos e panelas e disposto a lhe chegar a peia.

Dona Placidina era muito prática, nessas e noutras coisas... Ajeitava logo um café amargo, misturado com frutinhas de jurubeba torrada, que o marido engolia careteando e o empurrava para a rede, onde roncava até pela manhã ou se agitava e falava a noite inteira.

— Coitada de Dona Placidina, comentavam as amigas. Seu Maia é um santo homem sem esse diabo da pinga.

E ensinavam remédios, simpatias, responsos, rezas fortes. Simpatia que dera certo em outros casos, era nada para ele. Remédios? Inofensivos como a água do pote. Os próprios santos se faziam desentendidos dos responsos, velas acesas e jaculatórias recitadas.

Dona Placidina, cansada daquele marido incorrigível, acabou botando o coração ao largo, embora achasse, no íntimo, que melhor seria uma boa hora de morte para ela... ou antes, para o marido, esta parte no subconsciente.

Naquele dia, como a dose da boa fosse mais pesada, Seu Maia, que já vinha se ressentindo do fígado com passamentos e vista escura, se achou pior.

Os amigos o trouxeram para casa mais cedo. Tiveram mesmo de o levar para a cama e o meter entre as cobertas. De nada valeu a chazada caseira.

No dia seguinte, chamaram Seu Foggia que diagnosticou empanchamento e doença do coração. Receitou um purgativo e uma poção. Seu Maia piorou. Dona Placidina se desdobrou em cuidados especiais. Esqueceu o defeito do marido, as desavenças, os pratos quebrados e passou a sentir, antecipadamente, os percalços da viuvez.

Os amigos não arredaram. Faz-se a conferência médica das vizinhas prestativas. Escalda-pés, benzimentos, sinapismo, nada deu jeito. Nem valeu promessa de muito boa cera ao senhor São Sebastião. Seu Maia morreu.

Os companheiros tomaram conta do morto. Levaram o corpo.Vestiram-lhe o fato preto de sarjão, que tinha sido do casamento. Calçaram meias, ajuntaram-lhe as mãos no peito. Pearam as pernas e passaram um lenção branco, bem apertado, no queixo. Chamaram um canapé, largo de palhinha, para o meio da sala, deitaram o cadáver, cobriram com um lençol. Cuidou-se do pucarinho de água benta, com seu ramo de alecrim. Acenderam-se as quatro velas e, nos pés do morto, botou-se um caco de telha com brasa e grãos de incenso. Era assim que se arrumava defunto em Goiás, antigamente.

Os amigos foram chegando, tomando posição e começou o velório. Dona Placidina, entregue aos cuidados das amigas, mal escapava de uma vertigem, caía noutra. Afinal, à força de chás de arruda, de casca de tomba e de Água Florida de Murray, voltou a si e, como era decidida e de espírito prático, botou de parte o abatimento e passou a cuidar do pessoal que fazia sentinela.

Café com biscoito pelas 10 horas. Mais tarde, mexido de lombo de porco e ovos fritos com farofa, comido na cozinha, e requentão quando a noite esfriou mais e os galos passaram amiudar.

Entre a diligência caseira e suspiros puxados, a viúva, de vez em quando, levantava a ponta do lençol que cobria o marido e enxugava umas lágrimas hipotéticas. “Bom marido”, lastimava e, lá consigo, “não fosse a pinga, era a falta que tinha...”

No dia seguinte, veio o caixão com tampa solta, como de costume. Agasalharam ali o defunto. Chegaram mais amigos e mais comadres. Dona Placidina louvava as virtudes conjugais do finado, em crises nervosas de choro seco — sem lágrimas, o choro mais difícil que existe.

A cada visita que chegava, com seu carinhoso abraço e formalíssimos “meus pêsames”; havia uma exaltação no choro ressecado da viúva.

Pelas duas horas, começou a fazer vento de chuva e um trovão surdo se ouviu ao lado da Santa Bárbara. Como o caixão teria mesmo de ser carregado na força dos braços, os amigos resolveram apressar o saimento, antes que o tempo enfarruscado se decidisse em água. Vento da Santa Bárbara é chuva certa no São Miguel. E enterro debaixo de chuva era a coisa mais estragada que podia acontecer em Goiás.

Dona Placidina se debruçou em cima do morto. Não queria deixar sair Seu Maia, coitado... As amigas com chazadas de alecrim. Os amigos tomaram conta das alçadas e ganharam a rua. Entraram na outra, que era Direita, naquele tempo. Passaram a ponte da Lapa, subiram e entraram no Rosário para encomendação do corpo.

Os sinos das igrejas, todas, dobrando a lamentação de finados. Pela intenção do morto, cada amigo mandava dar um sinal nas igrejas, quanto quisesse. Ainda que os sinos tocam como a gente quer, alegres ou soturnos.

Os sineiros sempre tiveram esmero especial para anjinho ou defunto. Essas duas palavras, em Goiás, delimitavam as circunstâncias da idade, sem mais explicações. Anjinho era criança mesma ou moça virgem e, defunto, gente pecadora.

Ia o cortejo subindo e os homens se revezando nas alças, que o morto estava pesado. Com a doença curta, nem tivera tempo de emagrecer. Iam depressa, que a chuva já tinha posto uma carapuça branca no cocuruto do Canta Galo.

Na frente, um popular, afeito àquele préstimo, carregava a tampa que só ia ser colocada na beira da cova. Outros levavam os dois tamboretes, tradicionais, para o descanso do ataúde, quando se trocavam os que iam carregando. Os músicos, de fardão escuro, tocavam um funeral muito triste. Sendo de notar que não havia enterro em Goiás sem acompanhamento de música, somente os muito pobrezinhos. Na rabeira, a molecada da rua. Queriam ver o caixão descer no buraco, se divertiam com aquilo.

Na esquina da Rua do Fogo com a Rua da Abadia, existiu, durante muito tempo, um poste de lampião antigo, saliente, fora de linha, puxando mesmo para o meio da rua. Era um tropeço. Coisa embaraçosa. Não foram poucos os esbarros, cabeçadas, encontrões verificados ali.

Enterros que subiam, já de longe, começavam a torcer à direita para se desviar do lampião, que não tinha outra conseqüência senão atrapalhar. Naquele dia, com a aflição da chuva que vinha perto e com o peso do caixão que era demais, ninguém se lembrou do poste. Foi quando o compadre Mendanha, que ia na alça dianteira pela esquerda, pisou de mau jeito num calhau roliço, falseou o pé, fraquejou a perna e... bumba! Lá se foi o caixão bater com toda força no lampião.

Com a violência do baque, o defunto abriu os olhos, desarrumou as mãos e fez força de levantar o corpo.

A essa hora, o pessoal do enterro tinha se desabalado, em doida carreira pela rua abaixo e largado o morto se soltando da laçada das pernas. O dia inda estava claro, não era hora de assombração. Alguns, mais esclarecidos, resolveram voltar e ver de perto o acontecido.

Encontraram Seu Maia de pé, muito amarelo, escorado no poste, com tremuras pelo corpo e olhando, com desânimo o caixão vazio. Reconheceram, então, que o mesmo estava vivo e que era preciso voltar com ele para casa. Guardaram o caixão inútil na igreja da Abadia e desceram a rua, amparando o ex-morto.

Todas as janelas, agora, com gente assombrada ante aquele caso novo na cidade. A meninada na frente, gritava:

— Evém o defunto...

De dentro das casas, os moradores corriam para as portas e só se ouvia:

— Vem ver, Maricota... vem ver, Joaninha. Óia o defunto que evém voltando...

Amparado pelos amigos, metido naquele sarjão preto, desusado, calçado só de meias, lenço na cara e muito devagarinho vinha Seu Maia de volta.

Um portador foi na frente avisar Dona Placidina, daquela ressurreição e conseqüente retorno, ao que ela só teve expressão sintomática:

— Seja pelo amor de Deus.

Seu Maia chegou afinal, entrou, recebendo um abraço de boas-vindas mais ou menos calorosas da mulher. Bebeu um cordial. Meteu-se na cama e de novo foram chamar Seu Foggia. Este veio. Examinou, apalpou, auscultou, pediu para ver a língua. Concluiu, com sabedoria, que tinha sido um ataque de catalepsia, muito parecido com a morte, mas que não era morte, não.

A providência tinha sido o lampião do meio da rua, senão teria sido mesmo enterrado vivo.

A cidade comentou o caso por muito tempo. Seu Maia foi entrevistado por todos os sensacionalistas da terra — gente insuportável daquele tempo. Muita língua desocupada levantou a suspeita de que vários fulanos e sicranos daquele tempo tivessem sido enterrados vivos e toda a gente ficou se pelando de catalepsia. Os letrados foram até o Chernoviz e Langard. Conferiram-se diploma no assunto e discorriam de doutor e com muita prosódia, sobre catalepsia ou morte aparente.

Enquanto os comentaristas faziam roda, o doente recuperava a saúde. Dona Placidina, muito prática como sempre, aproveitou o acontecimento para uma pequena homilia doméstica, complicada e cheia de boa dialética feminina, de que “aquilo fora aviso do céu e castigo de Deus...”

E já pelo choque emocional — vá lá que naquele tempo não havia destas coisas não — já pelo medo de novo ataque e de ser mesmo enterrado vivo, o certo é que o homem moderou a bebida.

Dona Placidina, no entanto, já havia, no seu foro íntimo, aceitado a idéia da viuvez e aquela volta inesperada do marido vivo não melhorou de muito os pontos de vista da ex-viúva.

Alguns meses depois, Seu Maia adoecia gravemente. Vieram os amigos da primeira viagem. Apareceram as clássicas e inefáveis comadres. Deram-se os remédios. Da botica e extrabotica. Foi bem purgado e lhe aplicaram ventosas e sinapismos. Nada serviu. Seu Maia morreu.

Seu Foggia então declarou que, por via das dúvidas, só levassem o morto quando começasse a feder. Fez-se de novo o velório com todas as regrinhas de costume. Café com biscoito pelas dez horas. Viradinho de feijão e lingüiça comidos, com voracidade e discrição na cozinha, e quentão forte de canela e gengibre, quando a noite esfriou e os galos amiudaram.

Contaram-se casos. Louvaram as virtudes do finado, num breve necrológio. Passaram a anedotas discretas. Falou-se da carestia da vida, dos erros do governo e se fez a filosofia da morte.

A viúva chorou, mais ou menos conformada com aquela segunda via. O compadre Mendanha tomou conta de trocar as velas que iam se consumindo, de regrar o pucarinho de água benta com seu raminho de alecrim.

No dia seguinte, quando perceberam que não mais haveria engano, os amigos ajuntaram as alças e levantaram o caixão.

Dona Placidina, muito experiente, despediu-se do morto em soluços alternados. Teimou com as amigas: dessa vez havia de acompanhar, ao menos até a porta.

O compadre Mendanha, muito metódico e apegado aos velhos hábitos de sempre pegar caixão pela alça da frente e da esquerda, tomou posição. Outros pegaram pelos lados, adiante saiu a tampa, carregada por um popular e os tamboretes indispensáveis, renteando o caixão aberto.

Espalhado pelas ruas, o acompanhamento, só de homens. Agrupada com seus instrumentos enlaçados de crepes, a banda do funeral. Arrumado o cortejo, Dona Placidina botou o corpo fora da porta e chamou alto:

— Compadre Mendanha... Escuta, compadre, cuidado com o lampião da Rua do Fogo, viu... Não vá acontecer como da outra vez.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Oração do Milho


Senhor, nada valho!

Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e hastes e se me ajudardes, Senhor, mesmo planta de acaso solitária, dou espigas e devolvo, em muitos grãos, o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura, não me pertence a hierarquia tradicional do trigo e de mim não se faz o pão alvo universal.
O Justo não me consagrou o pão da vida, nem lugar me foi dado nos altares, sou apenas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra onde não vinga o trigo nobre; sou de origem obscura e de ascendência pobre, alimento dos rústicos e animais de jugo.
Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques coroados de rosas e espigas; quando os hebreus iam em longas caravanas buscar na terra do Egito o trigo dos faraós; quando Rute respigava cantando nas searas de Booz e Jesus abençoava os trigais maduros, eu era apenas o Bró, nativo das tabas ameríndias.
Fui o angú pesado e constante do escravo na exaustão do eito,
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante, Sou a farinha econômica do proletário,
Sou a polenta do imigrante e amiga dos que começam a vida em terra estranha,
Alimento de porcos e do triste mu de carga, o que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro,
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis,
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado,
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece,
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos,
Sou a pobreza vegetal agradecida a vós, Senhor, que me fizeste necessário e humilde.

Sou o milho!