"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia (...)."

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 7 de março de 2011

As Tranças da Maria


Feliz Dia Internacional da Mulher!


O caso d Izé da Badia ...
Era do que a gente falava.
Era só o que se ouvia.

O Izé ficou leso, atoado pelos campos...
Perdeu sua fé de vaqueiro
Consagrado nas vaquejadas.
Não mais seu canto violeiro,
Seu chamado boiadeiro.
O aboio do seu berrante
Que a gente ouvindo distante
Dava a pinta do ponteiro:
Lá evai o Izé da Badia,
Orei dos vaqueiros.

Chamava, o boi escutava.
Falava,o zaino entendia.
Cantava,as moças sorriam.
E agora...Tanta moça pelo mundo
E ele á procura de Maria.
Maria que sumiu.

Buscando seu pote d´água
No corgo de vista a casa.
O pote cheio,já no barranco.
A rodinha posta de lado.
A cuia se balançando.

E Maria...Aonde foi Maria?
Na garupa de um vaqueiro
Desconhecido dali
Buscando um bi de arribada
Falava rindo as comadres
Pelas portas conversando
Moça não tem pensar...
Noiva do Ize da Badia,
Memória já no dedo.
Bragal bordando na arca.

Vestido branco rendado.
Vestido de damacê.
Banhos já recorridos.
Casamento certo,marcado
No dia da santa assunção,
Sendo padrinho o patrão
Dono de campos e gado.

E agora... aquela armada.
A moça no seu sumiço.
O Izé leso sem mais idéias
Pelos campos sem destino
A procura de Maria.
Galhofa dos companheiros...
‘’Cadê o sedém da Maria,Izé?

Os sedenhos da Maria...
Seus cabelos ondulados.
Mantos solto se penteava.
Nua,encobria as formas.
Basta cabeleira negra
Dos joelhos vinham abaixo,
Dos tornozelos passavam.

Duas tranças bem trançadas
-rédea dos corações.
Izé da Badia,moço,vaqueiro de fama
Amarrado para sempre
No sedenho da Maria.

A mãe de Maria
Novenou a santo Antonio.
Reza nova emprazou:
Menino de Jesus de praga.
Foi no centro de kardec,
Fez grandes invocações.

Baixou o Espírito Guia:
-Maria desencarnada.
Espírito limpo no espaço
Fizessem suas boas preces.
Não mais chorassem por ela.

Sinalassem,pediu a mãe.
Sinais,teriam a seu tempo.
Resumiu o guia pela boca do aparelho.
Maria com seu pote de barro
Buscando água no riachinho.
O pote cheio já no barranco.
E Maria nunca mais voltou.
Niguém ouviu nada.
O mato guardou seus segredos escuros.

Maria se foi na garupa
De um vaqueiro,desconhecido
Dali,
Buscando boi de arribada.
Tagarelavam as comadres
Nos fuxicos de terreiro
Pelas portas conversando.

Falhou a velha Ambrosina:
-no mato tem bicho ruim...
A triste sorte da moça
Fora dessas conversas...

Tia s’ ta caducando...
Um Corguinho desses nada
Tem bicho fera nenhum...
Isso sim cabeceiras altas,
O volume de água lagoas... pode sê.
Não esse Corguinho, coisinha
Tão á toa!...

Tem brejo nas cabeceiras...
Catando lenha eu vi
O espojeiro da bicha,
Faz tempo,nigu´m me tira...
Voltei lá mais não.

Ao demais seu malaquias
Viu o sujo dela detrás do toco do embiruçu
E lá no embrejado,tejuco amassado,
E a porca de seu Ricardino
Era varadeira de cerca,
Levou tiro, urubu comeu.

Velha calou.Invocou nossa senhora,
São marcos.Alma bendita...
Hão de mostrar,mais dia menos dia.

O pai de Maria bateu estradas,
Vizinhança.corrutelas.
Indagou de sua filha.
Ninguém deu sinal dela.

Entrou em cidade grandes
Com juiz,delegado e praças.
Procurou a autoridade
E fez a queixa no usual
Dando todos os sinais.
Maria das graças de nome.
Registrada no cristã.
Moça feita.igualada de bons dentes
Sem falha nem ponto de ouro.

Nem alta nem baixa.
Meia de altura.
Cintura fina de duas mãos abarcar.
Boas cores de saída.Moça da roça assinando o nome,
Lendo por cima.
Seu sinal de maior fornidas
Alcançando a barra da saia,
Barrendo o chão.

O escrivão anotou em livro
E prometeu no vago: providenciar.
O pai seguiu seu destino
Andou em ruas de arrabaldes,
Encarou em ‘Casa de mulheres’’
Marcadas de luz vermelhas.
Deu todos os seus sinais
Sem esquecer as tranças negra.
Na sua angustia de pai,
Mesmo que fosse ali
Queria encontrar sua filha.
As mulheres assanhadas
Ouviam compenetradas,
Penalizadas do pai.
Uma ria outra chorava.
Ninguém tinha visto Maria.

Foi na cartomante
Acreditada.
Contou seus pesares, suas penas.
O escuro daquele caso
Pediu para clarear.
A verdade as cartas podiam contar.
O baralho baralhado.
Cortado e recortado em cruz.
Veio o naipe de espada.
O valete de paus.
A dama de luto, o rei do cerrada,
Atuada, invocada as fontes
Da cabala...
Pouca esperança.luto presente...
Se consolasse com o destino de sua filha.
Sinais?...Teriam a seu tempo.

O Pai voltou. Aquietou.
Lavrou tosca cruz de aroeira.
Fincou no barranco ao lado do pote.
Acendeu lamparina-dia-e-noite
Rogando os avisos do destino de sua filha.

Izé da Badia se refez.
Voltou a vaquejar.
Levar e trazer boiadas, sertão adentro, estradas e fora.
O aboio de seu berrante
Era um chamado constante
Da sua noiva Maria.

Já o cego desvalido
Pedinte das romarias
Tinha posto moda,
Rimado versos e traçado na viola
A romança de Maria.

Juntava gente nas feiras,
Abria uma grande roda.
Trovadores no desafio
Violeiros na viola.
Sempre a triste e chorada estória
Do sumiço da Maria.

Ate crianças de sitio
Nos folguedos de terreiro,
Nos seus brinquedos de rodas,
Uma ou outra se escondia.
Iam todas procurar
No faz de conta Maria.

O tempo fez o seu giro.
As estações se trocaram.
Passou o rolo compressor
Nas estradas consertando.
Também nos corações.
O compressor do tempo apagando.
Foi depois de tudo isso passado,
Contado e recontado que vieram
Os caçadores e suas matilhas de caça.
Pararam na porteira do sítio.
Tomaram chegadas
Caçadores de onça.
Pediram suas carecidas informações,
Gente de longe...
Ouviram pela milésima vez a estória
Do sumiço da Maria.
- que havia de voltar-disseram-compadecidos
E filhos para os velhos apadrinhar.

Provera a deus,responderam
Consabidos na sua magra esperança.

Tomado o café da hospitalidade sertaneja
Voltaram ás suas montadas.
- Caçadores de onça...
Suas trelas ansiosas, vivas,
Saltitantes, alçadas, sentindo.
E pressentindo a caça em todos
Os cheiros novos da terra, dos ares.
E das matas.

Tinham que atravessar o Corguinho
Com sua água de prata correndo em areia
Branca e lajedo claro.
No barranco,a cruz. O pote,a lamparina.
Luz pequenina,
Mal divulgada na grande luz do dia.
Lume,vago,pisca-piscando,
Invocando as almas no escuro da noite.
Na corrente os animais bebiam em sorvos
Pelas cambas dos freios.
Os cães sadentos,arfantes,respingantes,refrigerados
Conversavam do ouvido avivado
Á vista do pote e da cruz.

Uma trela onceira farejou
Seguindo o curso d’água.
Levantou pouco distante.
Caça grossa!...Ali!...

Paca, anta capivara, seria...
Decidido a trela perdia o faro.

Os caçadores meio atentos, displicentes,
Queimavam seus palheiros.
Do matos vinha o acuo resguardado.

Um caçador chamou na trompa.
Respondeu o ganido desmontaram.
Engatilhadas suas armas embaladas,
Seguiram no rumo certo.

No fundo do mato, na trama.
Verde da ramaria cipoal, samambaias,
No escuro do embrejado uma cena inesperada.
Rolo negro,movediço assanhado,
Enlaçado ao pastor onceiro, quebrava os ossos ao
Primeiro.
O outro, preso á trela, gania.
Em ânsias de escapar.

Um dois tiros.e o rolo negro,compressor,
Cedeu nos seus volteios se rebolcando
Pelos troncos.
O caçador cortou a trela.
Um pastor vivo em tremuras de pavor,
Arrepiado, vertendo inconsciente se arrastando, acovardado.

A gente do sítio ocorreu no rumo dos tiros.
Viram as feras mortas em contorções reflexas.
Na volta apanhamos, aproveitem o resumo p´ra sabão
Que essa bicha tem graxa.
E se foram. Caçadores de onça...
O dia se fazia alto.Campos e matas
Eram todos uns alagados de sol.

A gente do sítio arrastou o tronco rola-rolando
Para o descampado. Estiraram, palmearam.
Dezoito palmos bem medidos!

Por que razão obscura teria aquela besta – fera
Se desgarrado do seu grupo longínquo e vencendo
As sombras do dia e o escuro da noite.
Vindo se aninhar naquelas cabeceiras inocentes?...

Os homens na esfola em conversas, pilhérias e risadas.
Estaquearem o couro como sabe fazer agente da roça.
Voltaram ao carnal.Cortaram do baixo ao alto.
Viraram os debulhos. Arrancaram os pulmões,
Enormes, desconformes.
Cortaram, espostejaram.

Já as mulheres vinham com seus baldes,bacias e gamelas,
Recolher os pedaços daquela carne branca e gordurosa
Para o sabão caseiro.Os cães disputavam, rosnando,
Agressivos pedaços de bofe.

Findo o trabalho alguém se lembrou de romper o
(bucho alongado.

E o que estava ali, senhor?
Numa barrela escura, repulsiva espumosa – as
(traças da Maria
- Bem falou a velha Ambrosina.
A cartomante do baralho.O guia do centro de Kardec...
Haviam de ter a seu tempo o destino de Maria.

Epílogo como nas estórias bem contadas:

E o que fez delas o Izé?
Mandou trançar duas rédeas bem traçadas para seu cavalo
Libuno,crinudo,espadas romanas cruzadas,cabo negro,
Cavalo de vaquejadas.

Duas tranças primazia.Macias de luvas-mão,
Presas ás cambas de seus freio niquelado,
Em prata fina banhado.E o izé tinha nas mãos,
Todos os dias,o sedenho da sua noiva Maria.


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