"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia (...)."

Carlos Drummond de Andrade

Mostrando postagens com marcador Poesias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesias. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de abril de 2012

Eu Voltarei



Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.

Eu voltarei...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Árias Pequenas. Para Bandolim




Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.


(Júbilo Memória Noviciado da Paixão(1974) - Árias Pequenas. Para Bandolim - XI)
(Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.)


sábado, 7 de maio de 2011

Meias Impressões de Aninha (Mãe)

.

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregue à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes mulher?
Independência, igualdade de condições...
Emprego fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.
Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e ás vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.


(Vintém de Cobre –Meias Confissões de Aninha, p.190, 8°ed., 1996)



sábado, 9 de abril de 2011

Velho


Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.

Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.

A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga,
Que os teus nervosos círculos governa.

Estás velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma despedaçada de martírio
Ó desespero da desgraça eterna.


sábado, 2 de abril de 2011

Velho Sobrado


Um montão disforme. Taipas e pedras,

abraçadas a grossas aroeiras,

toscamente esquadriadas.

Folhas de janelas.

Pedaços de batentes.

Almofadados de portas.

Vidraças estilhaçadas.

Ferragens retorcidas.

Abandono. Silêncio. Desordem.

Ausência, sobretudo.

O avanço vegetal acoberta o quadro.

Carrapateiras cacheadas.

São-caetano com seu verde planejamento,

pendurado de frutinhas ouro-rosa.

Uma bucha de cordoalha enfolhada,

berrante de flores amarelas

cingindo tudo.

Dá guarda, perfilado, um pé de mamão-macho.

No alto, instala-se, dominadora,

uma jovem gameleira, dona do futuro.

Cortina vulgar de decência urbana

defende a nudez dolorosa das ruínas do sobrado

- um muro.

Fechado. Largado.

O velho sobrado colonial

de cinco sacadas,

de ferro forjado,

cede.

Bem que podia ser conservado,

bem que devia ser retocado,

tão alto, tão nobre-senhorial.

O sobradão dos Vieiras

cai aos pedaços,

abandonado.

Parede hoje. Parede amanhã.

Caliça, telhas e pedras

se amontoando com estrondo.

Famílias alarmadas se mudando.

Assustados - passantes e vizinhos.

Aos poucos, a " fortaleza " desabando.

Quem se lembra?

Quem se esquece?

Padre Vicente José Vieira.

D. Irena Manso Serradourada.

D. Virgínia Vieira

- grande dama de outros tempos.

Flor de distinção e nobreza

na heráldica da cidade.

Benjamim Vieira,

Rodolfo Luz Vieira,

Ludugero,

Angela,

Débora, Maria...

tão distante a gente do sobrado...

Bailes e saraus antigos.

Cortesia. Sociedade goiana.

Senhoras e cavalheiros...

-tão desusados...

O Passado...

A escadaria de patamares

vai subindo... subindo...

Portas no alto.

À direita. À esquerda.

Se abrindo, familiares.

Salas. Antigos canapés.

Cadeiras em ordem.

Pelas paredes forradas de papel,

desenho de querubins, segurando

cornucópia e laços.

Retratos de antepassados,

solenes, empertigados.

Gente de dantes.

Grandes espelhos de cristal,

emoldurados de veludo negro.

Velhas credências torneadas

sustentando

jarrões pesados.

Antigas flores

de que ninguém mais fala!

Rosa cheirosa de Alexandria.

Sempre-viva. Cravinas.

Damas-entre-verdes .

Jasmim-do-cabo. Resedá.

Um aroma esquecido

- manjerona.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Humildade


Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.



sábado, 12 de março de 2011

O Passado...



Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?

Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
-Que vale para eles o sobrado?

Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?

E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do Passado.